Bicicletas compartilhadas: uma infraestrutura de micromobilidade integrada à rede urbana

Basta observar uma estação de bicicletas compartilhadas para perceber que ela a constituem uma infraestrutura de micromobilidade capaz de ampliar as possibilidades de deslocamento, estabelecer conexões com outros modos de transporte e contribuir para a organização mais eficiente do sistema de mobilidade urbana.

Nos últimos anos, sistemas de bicicleta compartilhadas se espalharam por praticamente todas as grandes cidades.

Por que bicicletas compartilhadas importam

  • Ocupam pouco espaço e possuem elevada capacidade de atendimento: uma estação de bicicletas compartilhadas utiliza uma área significativamente menor do que a necessária para o estacionamento de automóveis e pode atender a um grande número de deslocamentos ao longo do dia. Em contextos urbanos nos quais o espaço público é um recurso limitado, a eficiência espacial torna-se um aspecto relevante para o planejamento da mobilidade.
  • Reduzem barreiras de acesso à mobilidade: a aquisição, o armazenamento e a manutenção de uma bicicleta representam custos que podem limitar seu uso. O compartilhamento reduz essas barreiras ao permitir o acesso ao veículo sem a necessidade de sua posse, ampliando as possibilidades de utilização da bicicleta por diferentes grupos de usuários.
  • Incorporam atividade física aos deslocamentos cotidianos: o uso da bicicleta para deslocamentos urbanos associa mobilidade ativa e atividade física, especialmente em viagens de curta e média distância. Dessa forma, benefícios relacionados à saúde podem ocorrer simultaneamente à realização do deslocamento cotidiano.
  • Podem contribuir para a redução dos impactos ambientais do transporte: a substituição de determinadas viagens realizadas por automóveis e outros veículos motorizados por deslocamentos cicloviários pode contribuir para a redução das emissões atmosféricas, do consumo energético, do congestionamento e da poluição sonora, principalmente quando o sistema alcança escala significativa de utilização.
  • Contribuem para a qualificação do espaço urbano: a presença de infraestrutura para mobilidade ativa pode modificar a relação entre deslocamento e espaço público, favorecendo ambientes mais acessíveis à circulação de pedestres e ciclistas e potencialmente fortalecendo atividades de comércio, convivência e permanência no nível da rua.

O que as fotos mostram

Nas imagens que registrei em Porto Alegre é possível observar o sistema em diferentes situações: uma estação de maior capacidade junto à orla, com dezenas de bicicletas; uma estação de menor porte localizada próxima a uma obra e tapume; e uma estação implantada em frente a um terminal de ônibus, com os veículos do transporte coletivo ao fundo.

É justamente essa última situação que merece destaque, porque evidencia uma das questões mais importantes para o planejamento desses sistemas: a integração espacial entre a bicicleta compartilhada e o transporte público coletivo.

Os números em Porto Alegre

É importante também observar a dimensão que o sistema apresenta na cidade. O Bike Itaú, operado pela Tembici em parceria com a Prefeitura de Porto Alegre e com patrocínio do Itaú Unibanco, retomou sua operação após os impactos da enchente de 2024, que afetaram significativamente a disponibilidade das bicicletas elétricas.

Na retomada, Porto Alegre voltou a contar com aproximadamente 1.000 bicicletas, sendo 700 bicicletas mecânica, e 300 bicicletas elétricas, distribuídas em cerca de 90 estações fixas. Esse volume posiciona a operação entre as maiores da Tembici no Brasil.

A estação com 45 bicicletas que aparece em uma das fotografias permite observar como a capacidade do sistema pode variar de acordo com a localização. Estações implantadas em áreas com maior concentração de deslocamentos podem apresentar maior número de vagas e bicicletas disponíveis, enquanto outras possuem dimensões menores.

Essa diferenciação é importante porque demonstra que a infraestrutura de compartilhamento não precisa ser homogênea. A capacidade das estações pode ser dimensionada de acordo com a demanda, as características do entorno e a função daquele ponto dentro da rede.

A expansão da rede também evidencia que a implantação das estações está relacionada à estrutura urbana e aos principais pontos de concentração de deslocamentos.

A própria Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana reforça essa estratégia ao indicar a implantação de novas estações próximas a grandes terminais de ônibus, aproximando a bicicleta do transporte público coletivo.

A integração com o transporte público coletivo

A bicicleta compartilhada pode desempenhar um papel importante nos deslocamentos de curta distância. Entretanto, seu potencial estratégico para a mobilidade urbana está justamente na integração com outros modos de transporte.

Essa integração é especialmente relevante para solucionar o chamado problema da primeira e da último km, correspondente aos trechos entre a origem ou o destino final do usuário e os pontos de acesso ao transporte coletivo, como terminais de ônibus, estações de metrô ou pontos de BRT.

Esse foi justamente o foco da minha tese de doutorado: A integração entre micromobilidade e o transporte público coletivo no contexto de cidades latino-americanas.

A pesquisa parte de um problema recorrente nas cidades latino-americanas: embora o transporte coletivo seja estruturado principalmente ao longo de grandes eixos de circulação, sua cobertura não necessariamente garante acessibilidade adequada aos locais de origem e destino das viagens.

É nesse espaço que a micromobilidade pode atuar como complemento e extensão da rede de transporte coletivo, e não necessariamente como concorrente.

Quando uma estação de bicicletas é localizada próxima a um terminal, como em uma das fotografias, sua função ultrapassa a oferta isolada de bicicletas. A proximidade espacial entre os dois sistemas cria uma possibilidade de transferência modal, permitindo que o usuário utilize o transporte coletivo em parte do percurso e a bicicleta no trecho complementar.

Entretanto, a integração modal não depende apenas da proximidade física. Ela envolve diferentes dimensões do planejamento da mobilidade, como acessibilidade às estações, conectividade da infraestrutura cicloviária, disponibilidade de bicicletas, integração tarifária, compartilhamento de dados e localização estratégica dos pontos de conexão.

Nesse sentido, a implantação de estações próximas aos principais nós da rede de transporte coletivo pode contribuir para ampliar o alcance espacial do sistema sem necessariamente exigir a expansão física de suas linhas.

As cidades latino-americanas apresentam desafios particulares nesse processo, como grandes extensões territoriais, desigualdade na distribuição da infraestrutura cicloviária e histórico de investimentos concentrados no transporte motorizado individual.

Por isso, a integração entre bicicleta e transporte público coletivo pode representar uma estratégia relevante para ampliar as possibilidades de acesso ao sistema de mobilidade, principalmente quando articulada a uma rede cicloviária conectada e a políticas de mobilidade ativa.

Uma estação de bicicletas compartilhadas, quando analisada isoladamente, pode parecer apenas mais um equipamento urbano.

Mas sua importância aumenta quando consideramos onde ela está localizada, quais áreas conecta, quais modos de transporte articula e qual função desempenha dentro da rede de mobilidade.

Quando posicionada próxima a um terminal, integrada a um eixo de mobilidade ativa ou conectada a outros pontos estratégicos da cidade, a estação deixa de ser apenas um local de retirada e devolução de bicicletas e passa a desempenhar uma função na estrutura da mobilidade urbana.

É justamente essa relação que meu trabalho de pesquisa busca compreender e qualificar: não bicicleta versus transporte público, mas bicicleta integrada ao transporte público, com cada modo contribuindo para diferentes etapas do deslocamento e, conjuntamente, ampliando as possibilidades de acesso à cidade.

Rolar para cima